Tragédias Diárias

Não me assustou a matança ocorrida na escola carioca na manhã de 07 de abril de 2011. Já vinha sendo anunciada há anos, não somente ali, como em qualquer escola de qualquer parte do Brasil.


Essa e as próximas tragédias são anunciadas pelas atitudes e omissões. Como estamos nos relacionando dentro das instituições educativas? Qual a qualidade desses relacionamentos? Quais cuidados temos em abordar e atender as pessoas? (atitudes extremamente abertas ou fechadas são, igualmente, perigosas).


E da parte das autoridades, quais são as prioridades: números expressos em proficiência de provas institucionais ou qualidade de atendimento e relacionamentos intra e extra escolar? Atendimento efetivo das necessidades da pessoa humana ou assistencialismo, que as tornam dependentes? Suprimento de recursos físicos e humanos para atender as demandas educativas ou oneração de funções dos educadores? Atendimento integral e efetivo ou discursos bonitos?


As respostas, de forma honesta a essas perguntas, deixarão claro que estamos sentados sobre um grande barril de pólvora prestes a explodir.


Com a palavra: nossas autoridades e todos nós!

No Comments

Filho de político na Escola Pública?

Recebi, de uma amiga, um texto muito interessante sobre o projeto do senador Buarque, que trata da possível obrigatoriedade da matrícula de filhos de políticos em escola pública. Por trás de algo interessante, há questões não muito claras.


Esta minha amiga, com sua experiência de Educadora na Rede Pública há 35 anos, bem como seu amor por tudo o que faz, esclarece-nos muitas coisas que há por trás de uma idéia aparentemente boa.


Por sugestão dela, publico aqui a resposta que ela deu a uma conhecida, sobre esse projeto.


Vale à pena conferir.


Antes, agradeço a querida professora e coordenadora pedagógica, agora aposentada, Professora Abigail Silva, por nos brindar com este excelente texto.




______________________


“Li esta obrigatoriedade dos políticos colocarem seus filhos na escola pública e achei foi engraçado, pois o problema não é a escola pública, mas os valores desta outra sociedade que “surgiu” dentro da “nossa”… o Drauzio Varella clareia bem ela no livro “Carandirú”…e que frequenta a tal escola pública que dizem não ter qualidade.

Trabalhei nela por quase 35 anos e a acho maravilhosa, e os profissionais são os mesmos que trabalham também na maioria das escolas particulares. A diferença está exatamente na sociedade que cada uma atende, digo nos valores culturais de cada uma delas. Daí minha amiga não dá pra fazer chita (que eu adoro) virar seda, concorda? Um vestido de noiva de idêntico modelo, um de chita e outro de seda não tem jamais o mesmo caimento, não é? Então são matérias primas diferentes. Um serve pra casar e o outro pra dançar nas festas culturais do nordeste…cá pra nós, acho que a 2ª opção é mais divertida…eu quero um vestido de chitaaaaaa.

Quanto ao Cristovão (gosto muito dele, pois suas falas me provocam) ele fala de um local de onde nunca esteve: na escola pública de ensino básico. Não na escola seletiva q ele provavelmente estudou e eu também. Falo da escola para todos, esta de hoje, a que todos tem direito, aberta ao público, sem seletividade.  Na USP não vale, pois lá estão as “melhores” cabeças, lá lida-se com a elite (raras exceções) que tem acesso, ou sabe acessar o mundo através de livros, internet…são os melhores estudantes, não é?

Na escola pública se lida com o fruto da sociedade escrita pelo Drauzio Varela, aquela que ele tão bem conheceu, pois conviveu voluntariamente anos a fio com a mesma. Aquela excluída de tudo, de conforto, de carinho, de laser,… com acesso a tudo que não deveria…drogas, além da violência desde a barriga que o concebeu…

Aí querem que a gente, professo,r faça milagre e transforme esta matéria prima em ouro… e olha que a gente até consegue algumas e boas petitas com um trabalho árduo, penoso mesmo.

Os que estão lá na escola pública já são pra nós (professores da escola pública) HERÓIS, pois conseguiram chegar até lá sobrevivendo ao “mundo cão” que é oferecido para eles desde a hora da concepção. Então terminar um 9º ano pra nós que convivemos com eles, por 8, 9 anos ou mais e sofremos as misérias que cada um trás consigo no dia-a-dia, é motivo de muita festa.

São duas sociedades tentando conviver no mesmo espaço…a elite dominante não quer saber desta outra sociedade e quer que a gente professor faça a transformação, que eles pulem da canoa feita de tronco velho, corroído pelo cupim para o navio deles e ainda saibam pilotar com maestria.

Como isto não vai acontecer nunca, então tem que achar o culpado…a escola pública não presta…mais precisamente, nós professores somos um lixo.

Não é esta a realidade, e se fosse, a tal educação continuada e a formação em serviço que eles oferecem nas escolas já teria resolvido o problema.

E as ONGs? Já viu quantas ONGs tem no mundo, no Brasil, em São Paulo, na nossa cidade???? Elas não vieram pra fazer a diferença, pra mudar a história deste povo sofrido, fazer com que eles acessem o navio??? Então, cadê o retorno disto? E olha que tem muitas ONGs sérias, que não são de fachadas e normalmente são dirigidas pela elite dominante de nosso país.

Então minha amiga eu não vou passar este texto divertido para frente, pois não concordo com o que lá está posto. Além do que a lei, é anti-democrática, pois tira o direito da pessoa optar, escolher…

Mas te agradeço por ele, pois me fez relembrar de todas, quase todas as crianças e adolescentes, pais, mães, pessoas que passaram por mim nestes 35 anos de labuta na escola pública e que me fizerem ser mais gente… a eles devo muito dos meus valores hoje, a eles devo o respeito que tenho pelo ser humano, que me comove só no olhar…

Foi a convivência como aluna na escola pública seletiva e como profissional do ensino na escola pública, mais uns safanões  e uns castigos caseiros, mais um monte de livros,  que me fizeram virar esta guerreira e me fazem carregar até hoje a bandeira pela qualidade de vida.”

_________________________

No Comments

Video: não desista nunca!

Abrindo o ano de 2011, proponho a todos a mensagem deste vídeo. Dura pouco mais de 3 minutos, assista até o fim – entenderá porque recomendo!

Créditos do vídeo: Educardo Bacelo Wezka.
Link original: http://www.youtube.com/watch?v=2z9qQUw-SE0 
Acessado em 06 de janeiro de 2011.
No Comments

Há 169 anos atrás

Há 169 anos atrás, em 08 de dezembro de 1841, um jovem sacerdote italiano acolhia um adolescente órfão e analfabeto, que tinha sido enxotado pelo sacristão.


Em uma conversa sincera, com um sinal da cruz e uma Ave Maria, iniciou-se uma grande obra educativa, que espalhou-se pelo tempo e espaço, influenciando e mudando a vida de milhões de pessoas. E tudo começou com ACOLHIDA, DIÁLOGO E ORAÇÃO.


Estou falando de Dom Bosco, que na presente data acolheu, dialogou, orou e ensinou o jovem Bartolomeu. Este, trouxe, na semana seguinte, outros em situação semelhante. A estes juntaram-se outros. Eram centenas.


Que belo exemplo esse de Dom Bosco! Deve ser repetido por muitos por este mundo, se quisermos de fato que o jovem seja protagonista.


Aproveito para celebrar também a conclusão de um vídeo, que a direção da escola na qual trabalho, me encomendou, como síntese dos momentos que estivemos juntos à nossos educandos neste primeiro ano da história da nossa escola.


Que Dom Bosco continue a nos iluminar e a dar o exemplo de como educar nossas crianças e nossos adolescentes. De forma simples, mas atuante.


Afinal, prestaremos contas a Deus pelo que fizemos a cada um desses pequenos confiados a nós.

João César
No Comments

BRINCADEIRA ≠ BULLYING

BRINCADEIRA ≠ BULLYING
BRINCADEIRA BULLYING
BRINCADEIRA:
- Todos se divertem do mesmo jeito.
- Ninguém se diverte com prejuízo ao outro.
BULLYING:
- A diversão de um prejudica o outro.
- Provocar, ameaçar, pegar as coisas dos outros, ofender, agredir, invadir espaço e privacidade.
O QUE ACONTECE COM OS ENVOLVIDOS:
1)Conversa com os envolvidos.
2)Conversa com os familiares.
Nessas duas etapas, 70% dos problemas são resolvidos.
Palavras chaves: diálogo, respeito.
Nos 30% não resolvidos, autoridades externas ao ambiente escolar tomam as decisões, na forma da lei:
3)Medidas socioeducativas (acompanhamento psicológico, médico, social, pedagógico e jurídico aos envolvidos e familiares).
4)Prestação de serviços comunitários.
5)Internação ou Liberdade Assistida.
E ai, o que você prefere?
A decisão é tua!
Proposta de leitura compartilhada:
“Bela”, de Julio Emilio Braz (Paulinas Editora). Narra a história de uma garota que era admirada por muitos e invejada por alguns. Como era constantemente provocada por uma colega invejosa e a tragédia que ocorreu por causa dessas provocações.


Colaboração de Professor João César.

No Comments

Educação laica versão exotérica

O tema deste meu texto é isso mesmo, por mais incoerente que pareça: “Educação Laica versão exotérica”. Incoerente é a realidade na qual vivemos!


Todos nós sabemos que a Educação Escolar é laica, para que as diversas crenças e descrenças que existem em nosso rico pluralismo cultural sejam devidamente respeitadas. Em nome desse laicismo há aqueles que são extremamente radicais a ponto de verem algo religioso em tudo e, por isso, merecedor de punição. Só não veem indícios de religiosidade subliminar em festas importadas (como o Dia das Bruxas, no lugar de nosso Dia do Saci) e filmes com bruxinhas adolescentes (minha turma no C.E.U já assistiu a, pelo menos dois, em cerca de três meses: “Bruxinha Bibi 2″ e “Lilli e o Dragãozinho”).


Quer dizer: a religiosidade da maioria não pode ser manifestada em ambiente laico, mas a de determinados grupinhos pode, por meio de atitudes subliminares. Isso é correto?


Se me disserem que essas festas e filmes têm uma mensagem positiva a ser disseminada, concordo plenamente. Mas, e as outras expressões religiosas, também não tem algo positivo? Por que certas preferências?


Deixo bem claro que sou  favor da Educação Laica, exatamente porque acredito que, assim sendo, a religiosidade de cada um pode ser respeitada – vivemos em uma sociedade de grande pluralismo cultural. Mas sou contra a essas imposições subliminares que são impostas a todos, em um ambiente que deveria ser laico.


Questão a ser pensada e debatida com racionalidade, sem paixões e radicalismos. Mas com atenção suficiente para questionar porque certa “cultura religiosa” pode estar presente por meio de festividades descontextualizadas e filmes bonitinhos.

Professor João Cesar
No Comments

Como vai, colega educador?

Como vai, colega educador?
Parece uma pergunta tola, mas não é!
Olhe para dentro de você, seja sincero.
Vou começar respondendo por mim, ai você fica mais à vontade, certo?
Bem mesmo, não ando, mas poderia ser pior. Não sou otimista, nem pessimista, mas realista.
Quando escolhi esta profissão, tinha 14 anos de idade, estava na oitava série e fui convencido a mudar de caminho, pois em 1989 o negócio já não estava assim tão bom. Quando conclui o antigo Magistério, mais críticas e conversas para eu desistir. Todos ficaram horrorizados quando comecei a lecionar. “Com tanto futuro, esse ai poderia ser jornalista, escritor, advogado ou padre”, diziam. De fato, tenho tendências a tudo isso, mas não é porque a profissão não anda bem que eu não vou insistir nela. Sou professor, essa é a minha escolha!
Mais de uma década que estou na ativa, tive muitas oportunidades de pular fora, e não pulei, nem pretendo pular. Já passei por muitas dificuldades, ameaças, até mesmo atentados, mas não pulo fora por nada!
O leitor deve pensar: “esse ai é doido mesmo!” Respondo que nada disso, apenas fortaleço-me diariamente das seguintes formas:
a) Consciência história: sei que minha profissão foi melhor valorizada no passado, que meus antecessores foram abrindo mão de vários direitos em nome de não sei o quê. Na medida do possível deixo claro que não abro mão dos direitos que ainda sobraram, doa a quem doer!
b) Objetivo bem claro: tenho consciência de que não mudo o mundo com meu trabalho docente, nem aos outros, mas posso estabelecer uma troca saudável entre eu e o outro. O outro me enriquece e eu enriqueço o outro; faço-me presente nele, e ele em mim; enfim, participamos das conquistas e derrotas mutuamente, somos parceiros de caminhada. E no caso da criança, essa caminhada dá-se de forma lúdica, a alfabetização e a formação do conhecimento podem ser uma “brincadeira” a mais em nossas vidas. Pelo menos, até agora, tem dado resultados e nenhuma quinquilharia que tentam impor desvia-me deste rumo, que não é meu, mas nosso.
c) Vínculo Comunitário: Há mais de quinze anos trabalho com a mesma comunidade. No começo foi muito difícil. Como em todos os lugares, há seus pontos positivos e seus pontos a melhorar. Em uma comunidade periférica, onde mais da metade da população está abaixo dos 30 anos de idade, com perfil de alta vulnerabilidade social, o negócio é pior. Mas pessoas que mostraram muito carinho para com essa Comunidade serviram-me de exemplo a persistir. E deu certo. A Comunidade não mudou (até parece que piorou), mas os vínculos estão fortes. As vezes ficar na porta da escola dando um sorriso àquela mãe carrancuda pode fazer a diferença, pode desarmar uma bomba; entrar numa rodinha de conversa ou de brincadeiras dos alunos e mostrar interesse por isso, pode fazer uma diferença enorme; encontrar com esse aluno ou sua família na rua ou no ônibus e perguntar sinceramente se estão bem, desamarra caras fechadas e sombrias. Não soluciona problemas, mas impede a criação de novos e pode até mesmo diminuir os existentes. Palavra chave: diálogo!



d) Espiritualidade: cuidar de meu relacionamento comigo e com os outros é uma questão de espiritualidade. Como me vejo? Como vejo o mundo? Isto não depende, necessariamente, de Religião, mas de como relaciono-me comigo, com os outros e com o transcendente. Tem coisa que a Ciência não consegue explicar de forma satisfatória como, por exemplo, o relacionamento professor-aluno (tentam, mas as respostas possíveis e atuais, não me satisfazem). Isso é o que chamo de Transcendente, aquilo que não está em mim, nem no outro, mas no caminho entre nós. Este ponto é vital, sem o qual nada é possível: posso ter ótimos livros, ótimos computadores, mas se não interajo com o aluno, ajudado por esses meios, não acontece nada! Cuidar de minha espiritualidade é aguçar meu olhar para aquilo que não se vê, é curtir uma música, um filme, um livro, é revigorar minhas energias. E isso, por mais que neguem, é real, é fato. A sabedoria popular diz que “saco vazio não para em pé”. Não sou saco vazio, tenho algo dentro e preciso cuidar desse algo.
Enfim, amigo educador, vou terminando aqui, pois a conversa já está longa.

Agora é sua vez. Como anda sua consciência sobre a profissão, anda abrindo mão de muita coisa sem clareza? Seu objetivo é claro e você elimina as quinquilharias que tentam afastar dele? Como é seu vínculo comunitário? – lembre-se de que, às vezes, é preciso abrir mão de algo para conquistar coisas maiores (o mar, em sua imensidão, abaixa-se para receber as águas dos rios). Como anda sua espiritualidade, seu interior? E sua privacidade: você mostra aos outros até que ponto podem chegar com você e vice versa? Eu faço isso, para evitar que mundos tão ricos se invadam e se anulem!

Pense bem antes de responder-me. Não aceito resposta escrita, quero olhar em seus olhos, sentir cada palavra que me falar. Afinal, o corpo e o olhar falam mais do que mil palavras.

Abraços e feliz dia dos professores a todos nós!


João César
No Comments

Dia da criança ou criança todo dia?

DIA DA CRIANÇA OU CRIANÇA TODO DIA?
Infelizmente, há datas que têm sua finalidade deturpada pelas pessoas. Assim é o dia da criança. Fala-se muito da criança, dá-se muitos presentes, mas no resto do ano, as pessoas não se fazem presente na vida das crianças.

Muitas crianças gostariam, ao invés de um presente uma vez por ano, que as pessoas estivessem presentes em suas vidas diariamente. E não venha justificar-se com a correria do dia a dia, pois presença não se faz somente pelo tempo dedicado (quantidade), mas pela intensidade (qualidade) do tempo em que se dedica a alguém.

Isso lembra aquela história do pai que nunca tinha tempo para seu filho, pois era um mártir do trabalho, a fim de dar a família condições dignas de vida. Mas toda noite passava pela cama do filho, acariciava-o, dizia-lhes umas palavras afetuosas e deixava um nó no lençol, como prova de que esteve ali por alguns segundos.

Também lembro-me de um fato recente (julho de 2010), ocorrido com uma aluna minha, na formatura do PROERD: seu pai, caminhoneiro, trouxe a filha até a porta da escola, abraçou-a profundamente, disse ter muito orgulho dela, mas que não daria para ficar na formatura, pois tinha que descarregar o caminhão. Esse pai disse também que a mãe da menina, já falecida, com certeza estava muito orgulhosa, vendo tudo do céu. Essa menina, sorridente e alegre, sempre tem seus pais presentes em seu coração. Por isso mesmo é uma aluna que se destaca no aprendizado e no comportamento, como outros também.

Nestes mais de dezesseis anos de docência, tive várias  outras experiências de pais e mães que poderia argumentar que não tinham tempo a seus filhos (e não tinham mesmo, se levarmos em conta o tempo cronológico), mas davam o máximo de si: mães analfabetas que reservavam alguns segundos suados para ver os cadernos dos filhos e fazer elogios aos progressos que viam e sentiam ali, mesmo não sendo capazes de ler o que estava escrito; pais que, mesmo cansados do trabalho, eram capazes de beijar a mulher e os filhos, que não tinham dinheiro para dar presentes, mas estavam presentes.

Preferi dar esses exemplos positivos, mas quero lembrar também daqueles pais que nunca estão presentes, mas fazem questão de encher os filhos de presentes e nunca dão-lhes uma palavrinha de carinho, nem uma correção afetuosa quando os filhos erram; aqueles que são apenas motoristas, levando a criança à escola ou catequese, e nunca se preocupam em perguntar aos educadores como suas crianças estão; aqueles que renegam a criança na frente de todos, como se ela fosse consequência de um aborto mal sucedido – infelizmente, atendo vários casos assim onde leciono.

O extremo dessa omissão toda também é prejudicial, como aqueles que querem corrigir os filhos de qualquer modo, inclusive humilhando-os ou espancando-os, quando não explorando ou abusando;ou formas mais sutis, como a superproteção, que tira a iniciativa da criança em agir. Tudo isso – omissão e certas ações, são formas de negligência, de crueldade.

E o que falar daquele tipo que só visita a criança (tanto em seu lar, como no orfanato), somente no dia 12 de outubro? Ou que percorre as ruas, nessa mesma data, distribuindo presentes e guloseimas, mas nos outros dias faz questão de cuidar bem de seu “totó” e gritar em altos brados “morte e cadeia aos menores abandonados”?

Em meio a tudo isso fico muito feliz com iniciativas de pessoas e entidades que tratam da criança o ano todo. Os padres Rosalvinos, Robertos, Julios – e tantos outros, que estão ali, com as crianças diariamente, em suas necessidades, fazendo-se presença viva e atuante, muito mais do que pais. E também os pais que citei anonimamente no incio deste texto. De pessoas assim, presentes o ano inteiro, verdadeiros presentes na vida das crianças.

E termino dedicando um carinho especial à todas as crianças que nestes  mais de dezesseis anos de Educador passaram por mim (e as que passam, e aquelas que passarão), sobretudo as mais problemáticas, com seu jeito de gritar por socorro. Agradeço a Deus por colocá-las em meu caminho, pois tenho consciência de que estou servido a Ele nelas.

Que Deus continue dando-me forças para que eu seja capaz de fazer a diferença na vida das crianças, diariamente, e não somente no dia 12 de outubro. Bênçãos também a eles, meus colegas educadores (inúmeros e anônimos) que dedicam-se às crianças. E, claro, bênçãos também aos inúmeros Rosalvinos, Robertos e Júlios que me mostram que o caminho é a Educação.

Minha gratidão a todos!

João César
12 de outubro de 2010.
http://pazeduca.pro.br/profjoao
_____________________
Breves notas explicativas, de nomes citados no texto:

“Roberto”: Referência ao padre Roberto, da Congregação de Santa Cruz, (família religiosa fundada pelo padre Moreau, conhecida em São Paulo pelo colégio de mesmo nome) que mantém vários núcleos socio-educativos no bairro do Jaguaré, atendendo aproximadamente 800 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.





“Rosalvino”: Padre Rosalvino, sacerdote salesiano (congregação fundada por Dom Bosco) que possui um enorme e belíssimo trabalho sócio-educativo no bairro de Itaquera.




“Júlio”: Padre Júlio Lancelotti, atuante junto a menores abandonados, crianças aidéticas e moradores de rua, por isso mesmo invejado e perseguido por muitos. Atua sobretudo na zona leste paulistana.

No Comments

Problema de todos?

Alguém já disse, certa vez, que o maior inimigo do professor é o próprio professor. Não concordo com isso, pois há quem ainda se preocupe com o outro. São os verdadeiros educadores: não metem a cabeça na areia, como avestruz, dizendo que o problema não lhe diz respeito, problema esse que poderia acontecer consigo.
Mas não posso negar que existe o tipo que pensa estar imune aos problemas do colega e prefere isolar-se do que somar forças em resolver um problema que, cedo ou tarde, poderá afetar-lhe exatamente porque acha que sua turma está posta sob uma redoma, imune aos problemas que afetam toda escola.

A esse tipo ofereço o conhecido texto abaixo:

Um rato, olhando pelo buraco na parede, viu o fazendeiro e sua esposa abrindo um pacote. Pensou logo em que tipo de comida poderia ter ali. Ficou aterrorizado quando descobriu que era uma ratoeira. Foi para o pátio da fazenda advertindo a todos:

– Tem uma ratoeira na casa, tem uma ratoeira na casa.

A galinha, que estava cacarejando e ciscando, levantou a cabeça e disse:
– Desculpe-me, senhor Rato, eu entendo que é um grande problema para o senhor,mas não me prejudica em nada, não me incomoda.
O rato foi até o porco e disse-lhe:
– Tem uma ratoeira na casa, uma ratoeira.
– Desculpe-me senhor Rato, mas não há nada que eu possa fazer, a não ser rezar. Fique tranquilo que o senhor será lembrado nas minhas preces.
O rato dirigiu-se, então à vaca. Ela disse:
– O que, senhor Rato? Uma ratoeira? Por acaso estou em perigo? Acho que não!
O rato, então, voltou para a casa, cabisbaixo e abatido, para encarar a ratoeira do fazendeiro.
Naquela noite, ouviu-se um barulho, como o de uma ratoeira pegando sua vítima. A mulher do fazendeiro correu para ver o que havia pegado. No escuro, ela não viu que a ratoeira pegou a a cauda de uma cobra venenosa. A cobra picou a mulher.
O fazendeiro a levou imediatamente ao hospital. Ela voltou com febre. Todo mundo sabe que, para alimentar alguém como febre, nada melhor que uma canja. O fazendeiro pegou seu cutelo e foi providenciar o ingrediente principal.
Como a doença da mulher continuava, os amigos e vizinhos vieram visitá-la. Para alimentá-los o fazendeiro matou o porco.
A mulher não melhorou e acabou morrendo. Muita gente veio para o funeral. O fazendeiro, então, sacrificou a vaca para alimentar todo aquele povo.
Por isso, da próxima vez que você ouvir dizer que alguém está diante de um problema e acreditar que o problema não lhe diz respeito, lembre-se de que, quando há uma ratoeira na casa, toda a fazenda corre risco.

do livro: “As mais belas parábolas de todos os tempos vol. II”
Alexandre Rangel (org.)
Editora Leitura.


No Comments

Disciplina

Viver em sociedade pressupõe uma série de coisas, dentre as quais, saber conviver com o outro, respeitando-o da mesma forma que gostaria de ser respeitado. E, para haver esse respeito mútuo, existem as regras de convivência.

Para que as regras de convivência sejam respeitadas por todos deve-se haver disciplina, que não deve ser confundida com medo, terror. Pois quem tem medo, respeita somente sob pressão; ausente a situação que impõe medo, já deixa de respeitar. Disciplina é algo que vai além, cria condições de organização e observância, de tal forma que o respeito ocorre independente da situação.

Deve haver disciplina em tudo na vida: no trabalho, na vida de fé, no lazer e em todos os ambientes dos quais participamos. Sem disciplina, há bagunça e desrespeito: faz-se somente o que quer e como quer, independente de prejudicar ou não os outros.

Quem ama educa, quem educa põe disciplina. Há pouco, cheguei da Missa Dominical em uma comunidade vizinha, na qual o Padre falava sobre a disciplina na fé (usando exatamente essa diferenciação entre disciplina e medo, que expus acima), uma vez que o Evangelho desta Missa (Lucas 14, 25-33) trata dos critérios que devemos ter em disciplinar nossa vida de fé, elegendo prioridades e planejamentos. Não sei se é porque havia criança barulhenta na porta da igreja, o Padre, ótimo pedagogo (como muitos o são em sua família religiosa) citou o exemplo da disciplina da criança, contando o caso de uma menina pequena que corria por uma loja e respondeu de forma grosseira à bronca de sua mãe. Concluiu o jovem pároco que se não pusermos disciplina em nossos filhos estaremos criando e alimentando monstrinhos, pois amar é educar, é mostrar limites, é disciplinar.

Fiquei pensando nas palavras desse sacerdote, comparando à situações de tantas crianças e adolescentes. Será que eles têm quem, de fato, os ame, a ponto de mostrar-lhes limites, disciplina? Ou será que, em nome de um falso amor, que tem medo de magoar, tolera tudo, sem disciplina? Foi sobre esse falso amor, que tem medo de magoar, criar traumas, que o padre também tratou em sua homilia.

Deus nos ama, cuida de nós, nos educa. E nós, amamos nossos jovens, a ponto de educa-los também?!? Ou é mais fácil deixá-los crescer sem limites e lamentarmos sua sorte depois, dizendo que os jovens de hoje não prestam?

No Comments